MP analisa representação que liga escândalo do Master à privatização da Sabesp e da EMAE por Tarcísio de Freitas
Líder da área de fusões e aquisições da empresa de Daniel Vorcaro assumiu como CEO da desestatizada EMAE, que depois foi comprada pela Sabesp privatizada por Tarcísio em uma “complexa arquitetura financeira envolvendo o Banco Master”.
Promotoria de Justiça do Patrimônio Público (PJPP) do Ministério Público de São Paulo analisa uma denúncia feita pelo deputado Antônio Donato (PT-SP), líder da oposição na Assembleia Legislativa de São Paulo, sobre uma possível conexão entre o escândalo envolvendo o Banco Master, de Daniel Vorcaro, e as privatizações da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo, a Sabesp, e da Empresa Metropolitana de Águas e Energia S.A., a Emae, conduzidas pelo governador Tarcísio Gomes de Freitas (Republicanos) entre abril e julho de 2024, em meio à uma série de suspeitas de fraudes.
A denúncia foi enviada inicialmente à Subprocuradoria Geral de Justiça que remeteu o caso à Promotoria de Patrimônio Público por não reconhecer foro privilegiado estadual para “particulares e executivos de empresas privadas” citadas na ação.
Em comunicado ao gabinete do deputado, o Ministério Público informa que o caso está em análise para “verificar eventual semelhança com outro procedimento já distribuído ao 5º PJPP”.
Representação
Antônio Donato entrou com o pedido de investigação após levantar informações e divulgar um vídeo, em fevereiro, em que revela “a
existência de complexa arquitetura financeira envolvendo o Banco Master, com potenciais repercussões sobre o sistema financeiro nacional”.
“Parte dessa estrutura envolve organizações societárias e financeiras relacionadas ao Banco Master, controlado por Daniel Vorcaro, ao investidor Nelson Tanure e ao empresário Carlos Piani, no contexto de operações vinculadas a processos de privatização no Estado de São Paulo”, diz, na representação que está em análise no Ministério Público.
Segundo Donato, o banco Master, de Daniel Vorcaro, teria atuado intensamente na estruturação e no financiamento de grupos empresariais interessados na privatização da EMAE e da Sabesp.
Após receber doação de R$ 2 milhões do pastor Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, em sua campanha ao governo do Estado, Tarcísio de Freitas iniciou seu governo visando as privatizações.
A Emae foi leiloada na Bovespa em 19 de abril de 2024. O Fundo Phoenix sagrou-se vencedor do leilão das ações estaduais da EMAE, pelo valor aproximado de R$ 1,04 bilhão, superando levemente a proposta da EDF. O fundo foi constituído em 20/03/2024, menos de um mês antes do certame, e teve como principal lastro ações da AMBIPAR.
Segundo Donato, as ações foram infladas em mais de 700% em uma ação estruturada realizada pelo presidente do Conselho de Administração da Ambipar, Carlos Augusto Leone Piani, que ficou no cargo até 24 de setembro de 2024.
Conforme o Parecer Técnico da Superintendência de Registro de Emissores da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o pagamento da aquisição de controle da EMAE foi viabilizado pelo Banco Master, via Trustee, por Nelson Tanure e Tércio Borlenghi Junior, fundador e controlador da Ambipar, por meio de uma emissão privada de debêntures da Phoenix S.A..
Além disso, após ser privatizada, a EMAE elegeu como presidenta Karla Maciel Dolabella, que antes liderava a área de fusões e aquisições do Banco Master. Membro do Conselho de Administração da Light, Karla Maciel renunciou em dezembro de 2025 aos cargos de CEO e de diretora de Pessoas e Sustentabilidade na Emae por “razões de foro pessoal”.
SABESP
A renúncia aconteceu na esteira das investigações de Daniel Vorcaro pela Polícia Federal e em meio à transferência do controle da EMAE para a Sabesp, em outro movimento recheado de indícios de fraudes.
Em julho de 2024, o governo Tarcísio de Freitas abriu mão do controle da Sabesp vendendo ações de uma das maiores empresas de saneamento do mundo por um valor 44% abaixo do real, segundo especialistas do Observatório Nacional das Águas (Ondas), da Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo (Arsesp) e da Associação de Profissionais Universitários da Sabesp (APU).
“Tarcísio de Freitas privatiza a Sabesp. E quem compra a Sabesp? A Equatorial. Quem era o presidente do Conselho Administrativo da Equatorial? Carlos Piani, que também a acumulava a presidência do conselho administrativo da Ambipar”, diz Donato no vídeo, que originou a ação.
Após deixar a presidência do Conselho da Ambipar, Piani assume, em outubro de 2024, a presidência da Sabesp. E segue no posto até os dias atuais. Na última sexta-feira (8), a Sabesp, agora controlada pela Equatorial, se credenciou também para a privatização da Copasa, empresa estatal de saneamento de Minas Gerais, colocada à venda durante a gestão Romeu Zema.
“Julho a setembro de 2025: Nelson Tanure pega R$ 160 milhões de reais do Caixa da Emae e compra CDBs podres do Banco Master. Outubro de 2025: Tanure não quita o empréstimo com a XP Investimentos que lhe permitiu comprar a Emae. A XP executa a dívida e assume o controle da Emae. Imediatamente depois, a Sabesp privatizada, comandada por Carlos Piani, compra a Emae da XP”, conta Donato.
“Resumindo, Carlos Piani, que no início estruturou uma operação fraudulenta para comprar a Emae, agora fecha o círculo e leva para dentro da Sabesp privatizada a Emae, uma empresa estratégica para gestão dos recursos hídricos do Estado de São Paulo. Novembro de 2025: Banco Master é liquidado pelo Banco Central e esse esquema todo começa a ser investigado. Tarcísio, não adianta esconder, as suas relações com o Banco Master estão todas aqui”, conclui Donato no vídeo – assista.
Na ação, Donato detalha a participação de Zettel, que doou R$ 2 milhões para a campanha de Tarcísio e R$ 3 milhões para Jair Bolsonaro em 2022.
Segundo a representação, o cunhado de Vorcaro e pastor da igreja Lagoinha, de André Valadão, foi uma das peças do Banco Master na parceria para aquisição da EMAE, envolvendo Nelson Tanure, a AMBIPAR, a REAG gestora de fundos e a Trustee DTVM, administradora da rede de fundos pertencentes a esses atores.
“Todos são hoje investigados no âmbito das Operações Carbono Oculto e Compliance por lavagem de dinheiro para o PCC e por fraudes financeiras e contábeis”, relata o documento, que inclui um fluxograma sobre o grupo.

O deputado pede investigação do grupo por crimes contra o mercado de capitais, contra o sistema financeiro nacional, lavagem de dinheiro, organização criminosa e atos de improbidade administrativa.
Leia a íntegra da representação enviada ao Ministério Público







