Donato Deputado PT

CORAGEM PARA MAQUIAR O BALANÇO

CORAGEM PARA MAQUIAR O BALANÇO

Coragem para maquiar o balanço

Tarcísio de Freitas se apresenta como alguém com ‘coragem para fazer o impossível’, mas seus feitos não se sustentam frente a dados oficiais

Governo deixa a marca de uma gestão generosa com interesses privados e parcimoniosa com direitos da população

O governador Tarcísio de Freitas publicou recentemente artigo laudatório sobre seus três anos de mandato. Apresenta-se como alguém que teve “coragem para fazer o impossível acontecer” e lista uma série de supostas entregas. O problema é que, ao confrontar o discurso com os fatos, o que emerge são meias verdades, omissões relev:mtes e afirmações que n:’io se sustentam nos dados oficiais.

Vendida como promessa de mais investimentos, melhoria do serviço e tarifas menores, a realidade da privatização da Sabesp tem sido outra: problemas recorrentes de falta de água, turbidez e mau cheiro associados ao aumento real das tarifas. Rm meio ao agravamento da crise hídrica, o governo e a empresa privatizada sequer fizeram o mínimo: uma ampla campanha de economia de água e um plano de contingência para hospitais, escolas e bairros mais afastados. O impossível, aqui, foi o serviço melhorar.

Celebra como conquistas de sua gestão o túnel Santos-Guarujá, o trecho norte do Rodoanel e a Linha 17-Ouro do metrô. No caso do túnel, omite que metade dos recursos virá do governo federal. Quanto às demais obras, nenhuma foi iniciada em sua gestão. O Rodoanel Mário Covas já possui 132 km em operação e o trecho entregue agora, de 24 km, já tinha cerca de 80% executado. Na Linha 17-Ouro, a obra estava em estágio avançado e o governo reduziu o projeto original. Concluir o que já estava adiantado não é façanha, é obrigação.

Outra falsidade são os dados do programa Casa Paulista. Afirma ter entregue mais de 76 mil moradias. Dados oficiais mostram que 68% desse número corresponde a cartas de crédito de até R$ 16 mil, destinadas apenas à entrada em financiamentos privados. Subsídio é política pública legítima, mas não é unidade habitacional entregue.

Na segurança pública, exalta a queda de homicídios, latrocínios e roubos, mas silencia sobre o aumento dos casos de feminicídio. Foram 233 vítimas de janeiro a novembro de 2025. Ignora ainda a explosão de furtos e roubos de celulares, os golpes cibernéticos e a persistente letalidade policial.

Na saúde, Tarcísio afirma ter criado 8 mil leitos, mas os dados do CNES (Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde) mostram que São Paulo tinha 31.373 leitos públicos em dezembro de 2022 e 31.159 em setembro de 2025. Ou seja, o estado perdeu 214 leitos no período.

O mais revelador da gestão é o que ficou fora do balanço: o escandaloso pagamento de mais de R$ 2 bilhões a concessionárias de rodovias por alegados prejuízos na pandemia, de R$ 3,7 bilhões à concessionária da Linha 6 para garantir entrega parcial no ano eleitoral de 2026 e os cerca de R$ 3 bilhões perdidos na venda das ações da Sabesp abaixo da cotação de mercado.

Soma-se a isso a regularização de terras griladas no Pontal do Paranapanema, com renúncia de R$ 18,5 bilhões, além de mais de R$ 80 bilhões em renúncias fiscais concedidas sem transparência, conforme diz o TCE (Tribunal de Contas do Estado). E o governo até hoje não explicou a corrupção bilionária com ICMS envolvendo altos funcionários da Secretaria da Fazenda.

A expansão dos pedágios free flow e o aumento de 63,5% no ICMS da gasolina ( em torno de R$ 0,60 a mais por litro) durante sua gestão foram esquecidos pelo governador.

O espaço não permite abordar outras narrativas falsas de Tarcísio. O governador fala em legado, mas o que seu governo deixa até aqui é a marca de uma gestão generosa com interesses privados e parcimoniosa com os direitos da população, sustentada por marketing, omissões e distorções próprias do bolsonarismo.

Antonio Donato
Deputado estadual pelo PT, é líder da Federação PT /PcdoB/PV na Assembleia Legislativa de São Paulo

TENDÊNCIAS/DEBATES

Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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Publicado originalmente na Folha de S. Paulo do dia 8/1/2026

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